Voltar para o início
Coordenador nega uso militar de radiotelescópio no Sertão da Paraíba após relatório dos EUA

Coordenador nega uso militar de radiotelescópio no Sertão da Paraíba após relatório dos EUA

Projeto internacional BINGO, instalado em Aguiar, tem finalidade científica e conta com apoio tecnológico chinês, segundo pesquisador.

Carlos HenriqueCarlos Henrique
9 de março de 2026
3 min de leitura
Paraíba

O coordenador do radiotelescópio BINGO no Brasil, o físico Élcio Abdalla, negou que a estrutura instalada no Sertão da Paraíba tenha qualquer finalidade militar. A declaração foi feita após um relatório de um comitê do Congresso dos Estados Unidos citar o laboratório como possível ponto de interesse estratégico da China na América Latina.

O laboratório integra o projeto internacional BINGO (Baryon Acoustic Oscillations in Neutral Gas Observations) e está localizado na Serra do Urubu, na zona rural de Aguiar. Abdalla afirmou que a iniciativa é voltada exclusivamente à pesquisa científica na área de radioastronomia.

O projeto busca detectar oscilações acústicas bariônicas (BAO) por meio da observação de sinais em radiofrequência, com o objetivo de estudar a matéria escura e a energia escura do universo. A iniciativa reúne instituições brasileiras e chinesas, entre elas a Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), a Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e o Governo da Paraíba.

Segundo Élcio Abdalla, a participação chinesa no projeto ocorre apenas no âmbito científico e tecnológico. “Não tem nada a ver com aplicação militar e os chineses estão nisso numa aplicação puramente científica”, afirmou.

De acordo com o pesquisador, apenas três cientistas de universidades chinesas participam da coordenação científica do projeto, colaborando principalmente em pesquisas e orientação de estudantes. Ele destacou ainda que mantém parceria acadêmica com alguns desses pesquisadores há cerca de três décadas.

Além da colaboração científica, parte dos equipamentos do radiotelescópio foi produzida na China. Entre os componentes enviados estão os espelhos primário e secundário e as torres das cornetas, peças centrais do sistema de observação. As estruturas foram transportadas em contêineres a partir do Porto de Tianjin e chegaram ao Brasil pelo Porto de Suape, em Pernambuco, após quase dois meses de viagem.

O coordenador também explicou que uma das tecnologias utilizadas no radiotelescópio, chamada de phased array um conjunto de antenas capazes de direcionar sinais, pode ter aplicações adicionais, como monitoramento ambiental e mapeamento de áreas florestais.

Segundo Abdalla, esses sistemas poderiam ser usados, por exemplo, para auxiliar na vigilância do espaço aéreo da Amazônia ou no monitoramento de atividades ilegais na floresta. Ele reforçou, no entanto, que essas possibilidades fazem parte de iniciativas de proteção ambiental e não de espionagem ou uso militar.

A previsão inicial era que o radiotelescópio começasse a operar em 2021, mas o cronograma foi alterado devido à pandemia de Covid-19. Agora, a expectativa é que o início das operações ocorra ainda em 2026, com funcionamento pleno previsto para 2027.

Relatório do Congresso dos EUA

O laboratório brasileiro foi citado em um relatório intitulado “Pulling Latin America Into China's Orbit” (“Atraindo a América Latina para a órbita da China”, em tradução livre). O documento foi elaborado pelo Comitê Especial sobre o Partido Comunista Chinês, órgão da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos.

O relatório é presidido pelo deputado republicano John R. Moolenaar e analisa possíveis mecanismos de influência e infraestrutura tecnológica chinesa na América Latina. O documento menciona instalações no Brasil, Argentina, Bolívia e Chile que, segundo o comitê, poderiam ter uso duplo para pesquisas civis e inteligência militar.

Entre os exemplos citados está também a chamada “Tucano Ground Station”, uma estação terrestre localizada na cidade de Tucano, voltada ao monitoramento de dados de satélites de observação da Terra.

O Governo da Paraíba estima um investimento direto de cerca de R$ 20 milhões no projeto do radiotelescópio BINGO.

Tags

#projeto#radiotelescopio#bingo#aguiar#paraiba#eua#china
Última atualização: 09/03/2026